A técnica de PCR no diagnóstico de doenças em animais silvestres vítimas de tráfico

A TÉCNICA DE PCR NO DIAGNÓSTICO DE DOENÇAS EM ANIMAIS SILVESTRES VÍTIMAS DE TRÁFICO

Quando se fala de PCR, DNA, biologia molecular, quase sempre pensamos em séries policiais, trabalho de peritos em cenas de crimes, entre outras coisas relacionadas à biologia forense. Porém a biologia molecular é uma poderosa ferramenta que ajuda em diversas áreas, como saúde humana e animal, conservação, melhoramento genético, entre outras. Aqui vamos falar do uso de uma técnica de biologia molecular sendo aplicada para saúde animal.

A Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) é uma técnica muito utilizada e conhecida, que tem por objetivo amplificar um fragmento específico de DNA, também conhecido como produto de PCR. Mas como conseguimos esse produto? Primeiro precisamos do DNA “molde”, que pode ser obtido por meio de amostras de sangue, de mucosas que podem ser coletadas com a ajuda de um suabe (um tipo de cotonete), tecido (músculo, fragmentos de órgãos, etc.). A partir dessas amostras, é feita uma extração do DNA, seu método varia de acordo com o tipo de amostra, suas condições, quantidade de material, entre outros diversos fatores. Os protocolos de extração podem durar de algumas horas a dias a fim de se obter um DNA de qualidade para os próximos procedimentos.

Agora com o DNA extraído, precisamos de outros “ingredientes” para fazer a reação funcionar: os dideoxirribonucletídeos (dNTPs), primers foward e reverse, Taq polimerase e um mix de tampões para a PCR. Esses “ingredientes” são “misturados” em um microtubo para PCR (capacidade de 0,2 mL) e colocados em uma máquina chamada de termociclador, também conhecida como máquina de PCR. Nessa máquina é onde ocorre a reação, primeiro há uma elevação na temperatura, por volta de 95°C, para a “abertura” (desnaturação) da fita dupla de DNA, depois há uma queda na temperatura que permite a “ligação” (anelamento) dos primers na região de interesse; aí a temperatura é novamente elevada, dessa vez para um temperatura por volta de 72°C que permite a atuação da Taq polimerase adicionando os nucleotídeos no fragmento (extensão). Essas “trocas” de temperatura ocorrem diversas vezes que podem ocorrer de 20 a 40 ciclos. Ao fim da reação, conseguimos vários fragmentos do DNA.

Fonte: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Polymerase_chain_reaction.svg

E agora, como conseguimos ver se a reação funcionou? O método mais simples e barato é a eletroforese em gel de agarose. Então um gel de agarose é preparado, e colocado em uma “cuba” contendo uma solução eletrolítica e ligada a uma fonte elétrica. Como o DNA possui cargas negativas a amostra migra para o lado das cargas positivas. A velocidade de “migração” varia de acordo com o tamanho do fragmento, sendo os menores mais rápidos. Após a eletroforese, o gel é removido da cuba com cuidado e colocado sobre um transiluminador com luz ultravioleta (UV), caso a reação tenha funcionado, é possível visualizar as bandas.

Fonte: https://wikiciencias.casadasciencias.org/wiki/index.php/Electroforese_(Biologia)

Agora vamos ver uma das aplicações dessa técnica. Diversos animais são vítimas de tráfico todos os anos, devido ao egoísmo humano. Devido às más condições durante o transporte, manuseio, alimento e o estresse causado por essas, os animais ficam imunossuprimidos e sujeitos a doenças. A exemplo dos psitacídeos, é muito comum estarem infectados com a bactéria Chlamydophila psittaci, responsável pela clamidiose nesses e pela psitacose em humanos. O grande problema da doença, é a presença de animais infectados assintomáticos, pois podem transmitir o patógeno para outros animais imunossuprimidos que acabam sofrendo com a doença podendo morrer.  Para a extração do DNA, são coletadas amostras de suabe da mucosa da cloaca ou dos olhos (caso o animal esteja com conjuntivite). Para a detecção da presença do patógeno, é necessário um par de primers específico que amplifique apenas na presença de C. psittaci. Para que o diagnóstico seja confiável, é preparado um tubo apenas com os reagentes sem DNA (controle negativo), para conferir se há contaminação e outro contendo um DNA de C. psittaci para conferir se todos os reagentes estão funcionando bem. Com isso, apenas amostras positivas para o alvo vão aparecer no gel confirmando o diagnóstico.

Além dessa bactéria é possível detectar outros patógenos, como Salmonella, desde que os primers que permitam sua identificação estejam disponíveis.

Esse é apenas um dos diversos métodos que nos fornecem dados sobre a saúde de animais que em conjunto auxiliam na tomada de decisão no tratamento dos mesmos.

Autora: Autora: Grécia Mikhaela Nunes de Lima

Referências:

Khan Academy. Reação em cadeia da polimerase (PCR). Disponível em: <https://pt.khanacademy.org/science/biology/biotech-dna-technology/dna-sequencing-pcr-electrophoresis/a/polymerase-chain-reaction-pcr>. Acesso em: 2 de abril de 2020.

Santos, F., Leal, D. C., Raso, T. D. F., Souza, B. M. P. S., Cunha, R. M., Martinez, V. H. R., … & Franke, C. R. (2014). Risk factors associated with Chlamydia psittaci infection in psittacine birds. Journal of medical microbiology, 63(3), 458-463.

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PSITACÍDEOS: AMOR E O MITO DA FIDELIDADE

PSITACÍDEOS: AMOR E O MITO DA FIDELIDADE

Papagaios do mangue (Amazona amazonica)

Foto: Thamiris A. Freitas

Liberdade. Essa é a palavra que define o comportamento de casal dos psitacídeos. Mas antes, preciso lhe perguntar: você sabe o que são psitacídeos?

Caso a resposta seja negativa, aqui está: psitacídeos são aves da família Psittacidae, e incluem os papagaios, periquitos, araras, maritacas, maracanãs, jandaias e afins. 

Esse grupo tem como principal característica a inteligência, refletida nos hábitos sociais desses animais.

Dito isso, percebemos que a maioria dos psitacídeos são aves sociais e tem hábitos gregários. 

Na natureza, eles vivem em grupos pequenos, pares ou bandos de até centenas de indivíduos. Além disso, eles escolhem os seus parceiros e formam casais. Essa escolha é livre, podendo ser uma ave do sexo oposto ou do mesmo sexo. O casal tem demonstrações de carinho, como oferecer comida no bico, coçar penas e defender o parceiro. Normalmente, os psitacídeos tem comportamento monogâmico, mas isso não impede que eles formem outros tipos de relacionamentos e nem que mudem de parceiro durante a vida.

Periquito-rei (Eupsitulla aurea
Foto: Alexia F. Alves

Já em cativeiro, devido ao estresse a qual as aves são submetidas, podem ocorrer falhas de socialização. Como a escolha é livre, na falta de dois psitacídeos da mesma espécie, ele pode escolher como casal um humano, cachorro, gato, ou outra ave de espécie diferente. 

As aves se tornam inseguras e ciumentas, refutando qualquer tipo de contato com terceiros. Por esse motivo, quando um tutor possui um psitacídeo em casa, se a ave o escolher, ela não o vê como “mãe ou pai”, e sim como um “cônjuge”. 

Como essas aves não apresentam dimorfismo sexual, os cativeiros que tem psitacídeos para fins reprodutivos precisam realizar a sexagem dos animais e um manejo a fim de formar casais compatíveis para o desenvolvimento de filhotes. 

Na época reprodutiva, as aves realizam a corte com exibições de plumagem, vôos e vocalizações. Após a escolha definitiva do parceiro, nidificam em ninhos e incubam os ovos por um longo período. 

Essas aves possuem cuidado parental, sendo necessário o trabalho conjunto do casal para o desenvolvimento da prole.

Periquito-da-caatinga (Aratinga cactorum)

Foto: Ariela C. Celeste

É preciso então entender os hábitos comportamentais dos animais e suas diferenças, tanto na natureza, cativeiros ou nos CETAS, para lidar da melhor forma e evitar o estresse, respeitando a individualidade de cada ave e fazendo um bom trabalho de socialização.

Autora: Alexia F. Alves

Referências:

Clique para acessar o cp130946.pdf

https://www.wikiaves.com.br/wiki/psittacidae

https://www.wildvet.com.br/blog

Allgayer, M. C. & Cziulik, M. 2007. Reprodução de psitacídeos em cativeiro. Rev Bras Reprod Anim, Belo Horizonte, v.31, n.3, p.344-350

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