Quem vive aqui? Jogo pedagógico sobre fauna urbana de Belo Horizonte estimula a coexistência e a valorização da biodiversidade

Compartilhe essa notícia:

Callithrix penicilata - Mico-estrela, espécie símbolo de BH

A fauna urbana está mais próxima do que parece

Imagine um domingo de manhã, o dia ensolarado e poucas nuvens no céu. Ao caminhar pela vizinhança, você vê rolinhas-roxas pulando pelo chão em busca de alimento. Nos fios de energia, micos-estrela se deslocam, talvez em direção a quintais arborizados. Logo, um grupo de maritacas atravessa o céu com vocalizações estridentes. É um dia comum em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Foto 1: Maritacas (Psittacara leucophthalmus) em fio de energia – Belo Horizonte.Foto 2: Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) em bloco de concreto – Belo Horizonte. Fotos: Izadora Cabral.
📷 Foto 1: Maritacas (Psittacara leucophthalmus) em fio de energia – Belo Horizonte.
📷 Foto 2: Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) em bloco de concreto – Belo Horizonte.
Fotos: Izadora Cabral.

Hoje, mais de 60% da população brasileira vive em áreas urbanas, o que intensifica a interação entre animais silvestres e humanos-urbanos. Esse convívio pode gerar conflitos, como a transmissão de doenças, atropelamentos ou choques elétricos.

Muitas espécies que antes viviam nas matas, hoje ocupadas pelas cidades, desapareceram ao não conseguir se adaptar ao meio urbano. Mas outras, como gambás, corujas, micos e urubus, encontraram formas de viver entre os fragmentos de vegetação e estruturas construídas por humanos. Esses são os animais que compõem a fauna urbana.

Atualmente, mais de 60% da população brasileira reside em áreas urbanas (1), o que resulta em um aumento significativo na interação entre animais silvestres e humanos-urbanos (2). Esse contato crescente pode desencadear conflitos, como atropelamento de fauna, choque elétrico e a transmissão de doenças de humanos para animais ou o contrário, mesmo sem contato direto. Muitos animais que viviam nas matas removidas pela urbanização já desapareceram, sem condições de se adaptarem ao meio urbano. Contudo, existem também aqueles que se adaptaram às condições urbanas (3) e utilizam dos recursos oferecidos pelos fragmentos de vegetação (4) ou pelas atividades humanas: os animais que compõem a chamada fauna urbana.

Urubus-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) em cima de telhado, Belo Horizonte. Foto por Izadora Cabral.
Urubus-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) em cima de telhado, Belo Horizonte. Foto por Izadora Cabral.

Projeto SOS Silvestres: proteção à fauna urbana de BH

Em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, o Projeto SOS Silvestres foi criado em 2020 para mitigar conflitos entre fauna urbana e humanos-urbanos, atuando no resgate de animais silvestres em situação de risco. Após os resgates, os animais saudáveis são translocados para alguma área verde onde há registros da ocorrência da espécie. Já aqueles que precisam de atendimento, são encaminhados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres CETAS de Belo Horizonte, unidade coordenada pelo Ibama e pelo IEF, responsável pelo recebimento de animais silvestres vindos de situações como apreensão, entrega voluntária e o próprio resgate. 

 

Gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris) resgatado pelo Projeto SOS Silvestres. Foto: Acervo Waita.
Gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris) resgatado pelo Projeto SOS Silvestres. Foto: Acervo Waita.

Além dos resgates, o projeto coleta dados para subsidiar políticas públicas e realiza atividades de Educação Ambiental.

Desde seu início, o projeto resgatou mais de 1.500 animais, se mostrando um serviço essencial, visto que as limitações de recursos humanos e financeiros dos órgãos públicos responsáveis pelo resgate de fauna Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Ibama implicam que o resgate dos animais e as orientações prestadas à população sejam ineficientes. 

Educação Ambiental: conhecendo e relembrando quem vive em Belo Horizonte

Em 2023 e 2024, o projeto iniciou ações em cinco escolas da rede municipal de BH. As oficinas de Educação Ambiental promoveram o reconhecimento e a valorização do território e o protagonismo estudantil.

A proposta foi apresentar aos(as) estudantes a fauna urbana de Belo Horizonte e suas relações ecológicas, demonstrando que os animais fazem parte do ecossistema urbano, assim como os seres humanos.

Educadores e educadoras participaram como parceiros(as) das oficinas e receberam materiais pedagógicos exclusivos, promovendo a integração do conteúdo ao cotidiano escolar.

Oficina de observação do ecossistema urbano. Foto: Acervo Waita.
Oficina de observação do ecossistema urbano.
Foto: Acervo Waita.

“Quem vive aqui?”: jogo educativo sobre animais da fauna urbana

Para introduzir o tema da fauna urbana de maneira lúdica e contextualizada, optou-se pela elaboração de um jogo pedagógico. Essa escolha foi feita na busca por uma ferramenta que possibilitasse a troca de informações. O aprendizado coletivo se daria por compartilhamentos de informações pelo jogo. Por um lado, considera-se que a falta de conexão entre os animais e a vida cotidiana dos(as) estudantes pode dificultar a assimilação dos conteúdos.

Por outro, os(as) próprios(as) estudantes, educadores e educadoras fornecem novos conteúdos, visto que a própria vizinhança pode ser um território de convívio com a fauna urbana. Nesse sentido, o jogo entra em cena como facilitador de aprendizagens, por meio da compreensão de um tema de forma lúdica, divertida e com motivação

Como funciona o jogo?

  • Jogo de cartas pedagógico e cooperativo.
  • Cada carta traz charadas sobre um animal, planta ou figura urbana.
  • O objetivo é descobrir coletivamente o ser vivo descrito na carta.
  • O jogo estimula o debate sobre direitos dos animais, relações ecológicas e o papel do ser humano no ecossistema.

    O jogo “Quem vive aqui?”
    O jogo “Quem vive aqui?”

Foram criadas 27 cartas principais, inspiradas principalmente nas espécies mais resgatadas pelo projeto, como:

Carta do urubu-de-cabeça-preta
Carta do urubu-de-cabeça-preta

 

  • Rolinha-roxa (Columbina talpacoti)
  • Coruja-caburé (Glaucidium brasilianum)
  • Maritaca (Psittacara leucophthalmus)
  • Mico-estrela (Callithrix penicillata)
  • Gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris)
  • Cágado-de-barbicha (Phrynops geoffroanus)

Outras cartas representam espécies exóticas (como a lagartixa), domésticas (como o cachorro), figuras humanas (como professora) e plantas comuns em BH (como o ipê), fomentando discussões sobre zoonoses, conhecimento do território e curiosidades sobre a biodiversidade urbana.

O principal intuito do jogo é dialogar sobre alguns dos animais que vivem no entorno das escolas, além de trazer aspectos sobre os direitos dos animais de habitar os territórios, o ser humano ser apenas um dos habitantes dos ecossistemas, a importância ecológica e as relações entre as espécies.

Conhecer para conservar: a fauna urbana como parte do nosso cotidiano

Ao reconhecer os animais com quem compartilhamos a cidade, abrimos espaço para conexões a partir de memórias afetivas, valorização do território e ações transformadoras. A proposta do jogo e das oficinas é simples, mas poderosa: despertar o cuidado a partir do afeto.

“Quem vive aqui?” não é apenas um jogo. É um convite à observação, à empatia e à conservação da biodiversidade urbana.

Texto por Maria Isabel Carvalho e Isabela Izidoro. Revisão por Magda Rocha.

 

Referências bibliográficas

1IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico de 2022. Rio de Janeiro, 2022.

2CANÇADO, Wellington. Habilidades de habitar. Revista Recorte, 2023. Disponível em: https://revistarecorte.com.br/artigos/habilidades-de-habitar/. Acesso em: 29 jul. 2024.

3REES, William E. Understanding urban ecosystems: an ecological economics perspective. In: REES, William E. Understanding urban ecosystems. New York: Springer-Verlag. p. 115-136. ISBN 0387954961. Disponível em: https://doi.org/10.1007/0-387-22615-x_8. Acesso em: 29 jul. 2024.

4ALMEIDA DO VALE, Carolina; PREZOTO, Fábio. Fauna urbana: quem vive aqui? CES Revista, v. 33, n. 2, p. 28, 2019. Disponível em: https://seer.uniacademia.edu.br/index.php/cesRevista/article/view/2282/1509. Acesso em: 29 jul. 2024.

5CAMBRÉA LONGO, Vera Carolina. Vamos jogar? Jogos como recursos didáticos no ensino de ciências e biologia. Prêmio Professor Rubens Murillo Marques 2012: incentivo a quem ensina a ensinar, v. 35, p. 28, 2012. Disponível em: https://publicacoes.fcc.org.br/textosf%20cc/article/view/5561/3597. Acesso em: 29 jul. 2024.

6DE MEDEIROS PERETTI, Eduardo; BRIZOLA YARED, Yalin; MARIANO DE BITENCOURT, Rafael. Metodologias inovadoras no ensino de ciências: relato de experiência sobre a criação de um jogo de cartas como abordagem colaborativa. Revista Internacional de Educação Superior, v. 7, p. 40, 2020. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/riesup/article/view/8656594. Acesso em: 29 jul. 2024.

Pesquisar

Notícias Recentes

Leia também

Deixe um comentário

Os comentários publicados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião da Waita.

 

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
Search

Pressione Enter para buscar ou ESC para fechar