Minas Gerais abriga uma das mais ricas biodiversidades do Brasil. O estado ocupa uma posição estratégica de transição entre três grandes biomas nacionais (Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga), o que resulta em uma impressionante diversidade de espécies, muitos endemismos e um número significativo de animais ameaçados de extinção. Remanescentes florestais, campos rupestres, áreas úmidas e complexos de lagoas formam mosaicos de habitats que sustentam uma ampla variedade de formas de vida, de vertebrados, invertebrados e plantas.
No entanto, essa riqueza natural convive com desafios crescentes. A perda e fragmentação de habitats, o tráfico de fauna e a pressão antrópica colocam em risco espécies fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas. A ausência de animais como aves endêmicas, grandes tatus e primatas arborícolas compromete processos ecológicos essenciais, como dispersão de sementes e regeneração florestal, afetando todo o ambiente ao seu redor.
O contexto que deu origem ao Projeto Fauna Mineira
O Parque Estadual do Rio Doce (PERD), maior remanescente contínuo de Mata Atlântica de Minas Gerais e um dos mais importantes do país, é um território-chave para a conservação da fauna ameaçada. Espécies como o bicudo-preto, o muriqui-do-norte, o bugio-ruivo e o tatu-canastra encontram no parque e em seus fragmentos do entorno um dos últimos refúgios viáveis.
Foi nesse cenário que pesquisadores que atuam na região criaram a iniciativa “Unidos pelo PERD”, reconhecendo que a cooperação entre projetos de pesquisa poderia fortalecer resultados científicos, sociais e ambientais. A união de esforços mostrou-se um modelo eficaz de atuação integrada, dando origem ao Projeto Fauna Mineira, voltado ao estudo e à conservação de espécies incluídas em Planos de Ação Nacional e consideradas prioritárias para a preservação da biodiversidade brasileira.

O que é o Projeto Fauna Mineira
O projeto “Fauna Mineira: Ações para a conservação do bicudo (Sporophila maximiliani), muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), bugio-ruivo (Alouatta guariba) e tatu-canastra (Priodontes maximus) no Vale do Rio Doce” surgiu como uma iniciativa voltada à proteção e ao monitoramento da fauna ameaçada em Minas Gerais, especialmente na região do Parque Estadual do Rio Doce (PERD) e seu entorno e esteve em atuação em 2025.
Foi concebido para preencher lacunas de conhecimento sobre espécies criticamente ameaçadas e apoiar estratégias de conservação baseadas em ciência. Desde sua concepção, o projeto priorizou a coleta sistemática de dados ecológicos, populacionais e comportamentais, com ênfase em espécies-alvo emblemáticas como o bicudo-verdadeiro, o muriqui-do-norte, o bugio-ruivo e o tatu-canastra. Além da geração de informação técnica qualificada, o Fauna Mineira também atuou na promoção de ações de sensibilização, integração com comunidades locais e fortalecimento de medidas de manejo e conectividade de habitats, contribuindo para a conservação de longo prazo da biodiversidade mineira.
Parcerias que fazem a diferença
Um dos pilares do Projeto Fauna Mineira foi a atuação colaborativa entre diferentes instituições e iniciativas, que somam expertises, metodologias e olhares complementares.
Bicudos – Waita
O objetivo principal é monitorar as populações de bicudo (Sporophila maximiliani) na região do Parque Estadual do Rio Doce (PERD) e seu entorno. Para se atingir ao objetivo proposto, a equipe do subprojeto pretendeu-se realizar o levantamento da população de bicudos presente na área de estudo, por meio de quatro expedições científicas em duas áreas de brejo do entorno do PERD para obter dados científicos robustos sobre as populações da espécie-alvo, que embasaram a criação e implementação de medidas para sua conservação regional.
Além disso, também foram realizadas capturas com redes de neblina para coleta de dados morfológicos de bicudos, avaliação do uso do território pelos bicudos, análise de dados populacionais. A equipe do subprojeto ambicionou obter dados comportamentais da espécie inéditos para a literatura científica mundial, aumentando o conhecimento sobre uma espécie criticamente ameaçada e rara na natureza e as ameaças às quais está submetida.
Projeto Tatu-canastra – Instituto de Conservação de Animais Silvestres
Na Mata Atlântica, a equipe do Programa de Conservação do Tatu-Canastra concentrou seus esforços no Parque Estadual do Rio Doce (PERD), a maior área contínua de mata nativa em Minas Gerais, com quase 36 mil hectares. Desde 2020, mais de 700 imagens da espécie foram registradas pelas armadilhas fotográficas espalhadas pelo parque, permitindo até o momento a identificação de 40 indivíduos. O PERD é considerado estratégico por abrigar o que pode ser a última população viável do tatu-canastra no bioma, reforçando sua importância como refúgio para essa e outras espécies ameaçadas de extinção.
O monitoramento incluiu visitas quinzenais e o uso de 56 armadilhas fotográficas acionadas por sensores de movimento, permitindo um acompanhamento detalhado da fauna. Além do tatu-canastra, cerca de 80 outras espécies foram registradas interagindo com suas tocas, reforçando o papel do animal como engenheiro ambiental, função que exerce também em outros biomas. Os estudos no PERD e seu entorno ajudam a compreender as ameaças enfrentadas pelo tatu-canastra, visto que acreditamos abrigar a última população viável da Mata Atlântica. Diante desse cenário, o trabalho nas áreas no entorno do parque buscou gerar informações que auxiliem e orientem políticas públicas e ações de conservação, para evitar que possíveis declínios populacionais se tornem irreversíveis.
O objetivo do trabalho dentro da Fauna Mineira foi ampliar os esforços, a fim de confirmar a presença da espécie e direcionar estratégias ainda mais eficazes. Conservar o tatu-canastra na Mata Atlântica significa, sobretudo, proteger a biodiversidade de um dos biomas mais ameaçados do Brasil.
Primatas PERDidos – Muriqui Instituto de Biodiversidade
O projeto Primatas PERDidos, criado em 2021, atua na conservação dos primatas do Parque Estadual do Rio Doce (PERD). O parque abriga espécies ameaçadas como bugio-ruivo, muriqui-do-norte e sagui-caveirinha, além de macaco-prego e sauá.
Além da pesquisa científica, o projeto também promove divulgação científica acessível, educação ambiental e ciência cidadã nas comunidades próximas, envolvendo crianças, jovens e adultos em escolas, universidades e eventos, com o objetivo de sensibilizar e engajar na proteção dessas espécies, que enfrentam ameaças como fragmentação, competição, hibridação e interação inadequada com humanos.
As atividades comunitárias têm fortalecido a conscientização, enquanto as ações de ciência cidadã capacitam cidadãos a participarem de pesquisas, promovendo maior entendimento e responsabilidade. Dessa forma, o projeto busca transformar os primatas em símbolos de preservação local, contribuindo para a proteção da biodiversidade. Dentro do “Fauna Mineira”, o projeto Primatas PERDidos realizou estimativas de abundância e densidade do muriqui-do-norte e do bugio-ruivo no interior do PERD, para avaliar suas populações no parque e assim propor ações de conservação mais eficazes para esses primatas.
As espécies foco do projeto
O bicudo (Sporophila maximiliani) é uma passeriforme da família Thraupidae, medindo entre 15 e 20 cm e pesando de 15 a 30 g. A espécie apresenta dimorfismo sexual marcante: machos adultos exibem plumagem negra brilhante com reflexos azul-esverdeados e bico claro (marfim), enquanto fêmeas e jovens possuem coloração parda/marrom e bico escuro. Os machos atingem a plumagem definitiva por volta de um ano de idade. Duas subespécies são reconhecidas: S. m. maximiliani, predominante no Cerrado brasileiro e regiões adjacentes, e S. m. parkesi, distribuída no norte da América do Sul e na região amazônica brasileira. O bicudo ocorre em ambientes quentes e úmidos, associados a áreas alagadas, matas ciliares e brejos, podendo utilizar pastagens e cultivos agrícolas. É uma ave granívora, consumindo principalmente sementes duras de gramíneas nativas. A reprodução ocorre entre setembro e março, com forte papel do canto na defesa territorial e atração de fêmeas. Machos podem apresentar comportamento agressivo contra predadores de ninhos. Os ninhos são em formato de tigela, construídos com fibras vegetais, geralmente com postura de dois ovos e incubação de cerca de 14 dias. A espécie é considerada ameaçada, em grande parte devido à perda de habitat e captura ilegal para o tráfico de aves.

O tatu-canastra (Priodontes maximus), é exclusivo da América do Sul e pode ser encontrado nos biomas Pantanal, Amazônia, Cerrado e em áreas remanescentes da Mata Atlântica. Mede cerca de 1,5 metro de comprimento e pode pesar até 50 quilos. Discreto e de hábitos noturnos, passa grande parte do tempo escavando tocas profundas, que podem chegar a 5 metros de comprimento e 1,5 metros de profundidade. A reprodução do tatu-canastra é extremamente lenta: o animal atinge a maturidade sexual apenas entre 7 e 9 anos de idade e, a partir daí, a fêmea tem gestação de cerca de cinco meses, produzindo apenas um filhote a cada três ou quatro anos. Esse ciclo reprodutivo tão longo torna a espécie especialmente vulnerável a pressões ambientais. Além disso, as tocas abandonadas pelo tatu-canastra tornam-se verdadeiros refúgios, utilizados por mais de 100 espécies de vertebrados e cerca de 300 espécies de invertebrados, desempenhando um papel crucial no equilíbrio dos ecossistemas. Apesar de sua relevância ecológica, o tatu-canastra está ameaçado de extinção, principalmente pela perda e fragmentação de seus habitats. A conservação da espécie é, portanto, essencial não só para sua própria sobrevivência, mas também para manter a complexidade e a diversidade dos ambientes onde vive.

O muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), maior mamífero endêmico do Brasil e maior primata das Américas, é encontrado exclusivamente na Mata Atlântica. O Parque Estadual do Rio Doce (PERD) é um dos poucos refúgios que abrigam essa espécie. Atualmente, o muriqui está ameaçado de extinção e já integrou a lista dos 25 primatas mais ameaçados do mundo, principalmente devido à fragmentação de seu habitat, que provoca o isolamento populacional e aumenta os riscos de endogamia.

O bugio-ruivo (Alouatta guariba), também endêmico da Mata Atlântica, é conhecido por sua vocalização de ronco e sua pelagem avermelhada. Essa espécie está à beira da extinção no PERD, provavelmente devido à febre amarela. Assim como o muriqui, esse primata também integrou a lista dos 25 primatas mais ameaçados globalmente. Ambas as espécies desempenham um papel fundamental como jardineiras da floresta, atuando como dispersoras de sementes que promovem a regeneração do habitat. Dessa forma, contribuem para a manutenção da biodiversidade e para a proteção de diversas outras espécies que dependem desse ambiente para sobreviverem.

Impactos e relevância da atuação conjunta
O Projeto Fauna Mineira se destacou por integrar pesquisa científica, monitoramento, educação ambiental e conservação em um território prioritário para a biodiversidade brasileira. Ao unir diferentes instituições e frentes de atuação, o projeto ampliou a geração de dados ecológicos e biológicos essenciais, fortalecendo a compreensão sobre populações ameaçadas e os desafios que enfrentam ao longo do tempo.
Essas informações subsidiam ações mais eficazes de manejo, proteção e recuperação de habitats, além de apoiar a formulação de estratégias e políticas públicas baseadas em evidências. A utilização de espécies sensíveis como indicadores ecológicos potencializou os benefícios do projeto, contribuindo para a conservação de diversos outros organismos e para a manutenção dos processos ecológicos.
Além dos impactos ambientais, o Fauna Mineira promoveu o fortalecimento da pesquisa científica, a formação de profissionais e o engajamento da sociedade por meio de educação ambiental e ciência cidadã. Ao articular ciência, território e pessoas, o projeto reforçou que a conservação da biodiversidade depende de cooperação, conhecimento qualificado e compromisso de longo prazo.