Nos últimos meses, o caso do Cão Orelha chocou o Brasil e reacendeu um debate urgente: até quando a violência contra animais será tratada como algo isolado?
A indignação coletiva é legítima e necessária. Mas ela também precisa ir além.
Porque, enquanto casos como esse ganham visibilidade, milhares de outros episódios de maus-tratos acontecem todos os dias longe das câmeras. E muitos deles envolvem animais que raramente entram nessa conversa: a fauna silvestre.
É nesse contexto que o Abril Laranja ganha relevância.
O que é o Abril Laranja?
O Abril Laranja é uma campanha internacional de conscientização sobre a prevenção dos maus-tratos contra animais. A iniciativa foi criada pela American Society for the Prevention of Cruelty to Animals (ASPCA), nos Estados Unidos, e hoje mobiliza organizações, instituições e a sociedade civil em diversos países.
Ao longo do mês, o objetivo é dar visibilidade às diferentes formas de violência contra os animais (muitas delas normalizadas) e reforçar que o respeito à vida deve ser um compromisso coletivo.
Maus-tratos além do que se vê
No caso da fauna silvestre, os maus-tratos nem sempre são reconhecidos como tal. Um exemplo clássico é a posse de animais silvestres como “pets”.
Por trás de um animal mantido em casa, há quase sempre uma história de sofrimento:
- filhotes retirados da natureza, muitas vezes com a morte dos pais
- transporte ilegal em condições extremas
- privação de comportamentos naturais, solidão
- alimentação é cuidados inadequados e estresse constante

Mais do que uma questão legal, a posse de animais silvestres é uma questão ética. Esses animais não passaram por processos de domesticação e não pertencem ao convívio doméstico, longe de interações e estímulos com o ambiente, companheiros de espécie e outras espécies. Ainda que exista comércio legalizado para algumas espécies, isso não elimina o sofrimento. Já o tráfico de animais silvestres, uma das maiores ameaças à fauna brasileira , retira milhões de indivíduos da natureza todos os anos, e muitos sequer sobrevivem até o destino final.
O caminho até os centros de reabilitação
Grande parte dos animais resgatados dessas situações é encaminhada para estruturas como os CETAS (Centros de Triagem de Animais Silvestres), CRAS (Centros de Reabilitação de Animais Silvestres) e CETRAS (Centros de Triagem e Reabilitação).
Esses locais recebem animais vítimas de maus-tratos e outros conflitos:
- tráfico
- cativeiro ilegal
- atropelamentos
- queimadas e desastres ambientais
- conflitos com humanos

É nesse cenário que instituições como o Waita atuam, contribuindo para a reabilitação, manejo e, sempre que possível, a devolução desses animais à natureza.
Mas é importante lembrar: o melhor resgate é aquele que não precisa acontecer.
Maus-tratos também são desinformação
Nem toda violência contra a fauna silvestre nasce da intenção direta de ferir. Muitas vezes, ela vem da falta de informação.
Ações comuns e prejudiciais incluem:
- alimentar animais silvestres
- tentar “salvar” filhotes sem necessidade
- manter animais encontrados em casa
- compartilhar conteúdos que incentivam a domesticação e a posse de animais silvestres como pets
Além disso, práticas como a caça ilegal, a perseguição por medo ou preconceito e atos de crueldade deliberada continuam sendo uma realidade em diferentes regiões do país.
Educação ambiental: a chave para a transformação
Se o problema é complexo, a solução também precisa ser coletiva e passa, necessariamente, pela educação.
A educação ambiental tem o poder de transformar percepções, comportamentos e relações. É por meio dela que entendemos que animais silvestres não são pets, que cada espécie exerce um papel essencial nos ecossistemas e que nossas escolhas impactam diretamente a biodiversidade.
No Waita, a educação ambiental é uma ferramenta central de atuação. Trabalhamos para estimular a reconexão das pessoas com a natureza, valorizar a biodiversidade brasileira e fortalecer a compreensão sobre os papéis ecológicos das espécies, pilares fundamentais para a conservação.

Ao longo dos nossos projetos, já são mais de 7.500 pessoas sensibilizadas diretamente por meio de ações educativas. Mais do que compartilhar conhecimento, essas iniciativas promovem inclusão, engajamento e o senso de responsabilidade ambiental.
Um convite à ação
O Abril Laranja nos convida a olhar com mais atenção para todas as formas de maus-tratos, inclusive aquelas que passam despercebidas.
Proteger a fauna silvestre é proteger os ecossistemas, a biodiversidade e, em última instância, a nossa própria existência.
Você pode fazer parte dessa mudança:
- não compre animais silvestres
- denuncie o tráfico e maus-tratos
- apoie instituições sérias de conservação
- compartilhe informação de qualidade