O Rio São Francisco é muito mais do que um dos principais rios do Brasil. Conhecido carinhosamente como “Velho Chico”, ele sustenta ecossistemas, abastece cidades, movimenta a economia local e faz parte da identidade cultural de milhares de pessoas que vivem em suas margens.
Mas proteger um rio tão importante exige mais do que monitoramento ambiental. Exige ouvir quem convive diariamente com ele, conhece seus ciclos e constrói sua história. É nesse contexto que surge o Projeto Ribeirinhos.

Uma rede de monitoramento construída com quem vive o rio
A história do projeto começa em 2010, com a criação do Programa de Monitoramento da Biodiversidade e Gestão Ambiental Participativa no Médio São Francisco, coordenado pelo IBAMA.
Ao longo de aproximadamente 350 quilômetros do rio, pescadores e pescadoras passaram a atuar como importantes parceiros da conservação, realizando registros de desembarque pesqueiro e coletando amostras biológicas que ajudam a gerar informações sobre a biodiversidade aquática da região.
Esses dados são analisados por universidades parceiras e contribuem para o acompanhamento de espécies ameaçadas, monitoramento de espécies invasoras e produção de conhecimento científico que subsidia a construção e revisão de políticas públicas ambientais.
Mais do que produzir dados, o programa demonstrou que a participação das comunidades locais é fundamental para promover uma gestão ambiental mais eficiente.

Imagem: acervo Waita
O nascimento do Projeto Ribeirinhos
Em 2020, uma parceria entre o Waita, o Ministério Público de Minas Gerais e os demais parceiros do programa possibilitou o início de uma nova etapa: o Projeto Ribeirinhos.
A iniciativa ampliou a rede de coletores e coletoras e incorporou uma nova dimensão ao trabalho já realizado: a Educação Ambiental.
A partir de reuniões comunitárias, rodas de conversa e escuta ativa dos moradores, foram identificadas demandas socioambientais prioritárias, especialmente na comunidade da Vila dos Baianos, localizada no município de São Francisco (MG), onde se concentra grande parte dos participantes do projeto.
Essa aproximação permitiu compreender desafios locais e construir soluções de forma participativa, valorizando o protagonismo das próprias comunidades.

Educação Ambiental para transformar territórios
Em abril de 2026, o projeto iniciou uma nova fase voltada para a implementação de ações de Educação Ambiental relacionadas às demandas identificadas pelos moradores.

Imagem: acervo Waita
Entre os temas prioritários estão:
- Gestão adequada de resíduos sólidos;
- Recuperação de áreas degradadas;
- Valorização da cultura ribeirinha;
- Fortalecimento do pertencimento e do cuidado com o território.
As ações são desenvolvidas por meio da mobilização comunitária e da articulação de diferentes parceiros, sempre buscando promover processos coletivos de tomada de decisão. A proposta é simples, mas poderosa: as transformações mais duradouras acontecem quando as próprias comunidades participam da construção das soluções.
O valor dos saberes tradicionais
Uma das maiores riquezas do Projeto Ribeirinhos está no valorização dos conhecimentos construídos ao longo de gerações pelas populações que vivem às margens do São Francisco.
A moradora que transforma resíduos orgânicos em adubo por meio da compostagem. A senhora que produz polpas utilizando os frutos da estação. O pescador que conhece o comportamento das espécies e identifica mudanças nos ciclos do rio. As famílias que cultivam alimentos nas áreas de vazante. Todos esses conhecimentos carregam experiências valiosas sobre convivência com o ambiente e uso sustentável dos recursos naturais.
No Projeto Ribeirinhos, esses saberes não são vistos apenas como complementares à ciência. Eles são parte fundamental da construção de estratégias de conservação e desenvolvimento territorial.
Reconhecer e valorizar esses conhecimentos é uma escolha metodológica, mas também um compromisso ético com as comunidades que vivem, protegem e ajudam a escrever a história do Rio São Francisco.
Construindo o futuro do Velho Chico
A conservação do Rio São Francisco depende da integração entre pesquisa científica, participação social e valorização cultural.
Por meio do Projeto Ribeirinhos, o Waita reafirma seu compromisso com uma gestão ambiental participativa, que coloca as pessoas no centro das soluções e reconhece que a proteção da biodiversidade está diretamente conectada à qualidade de vida das comunidades.
Ao fortalecer os laços entre ciência e saberes tradicionais, o projeto contribui não apenas para a conservação do rio, mas também para a construção de territórios mais sustentáveis, resilientes e preparados para os desafios do futuro.
Porque cuidar do Velho Chico é, acima de tudo, cuidar das pessoas, da biodiversidade e da história que corre junto com suas águas.
Imagens: Projeto Ribeirinhos/Acervo Waita