Manter gatos soltos coloca em risco a biodiversidade local
Seu gato alguma vez já te trouxe um “presentinho” – como algum inseto, passarinho ou até mesmo um pequeno mamífero?
Algumas pessoas podem se assustar ou até apreciar o gesto… mas, o que muita gente não sabe é que esse comportamento dos gatos já causou extinções ao redor do mundo!

Gato segurando um lagarto na boca.
Foto: Emris Joseph – Pexels.
Embora pareça inofensiva, a predação de animais silvestres por felinos domésticos é muito mais comum do que se imagina — e tem consequências graves para a biodiversidade.
Um trágico exemplo disso ocorreu em 1894, na Ilha de Stephens (Nova Zelândia), onde um único gato doméstico exterminou a cotovia-de-stephens (Xenicus lyalli) – uma ave muito rara, que só podia ser encontrada ali.
O felino, que todas as noites levava uma cotovia abatida para o seu dono, dizimou toda a população dessa ave endêmica em apenas um ano!
No Brasil, apesar de não existirem histórias tão emblemáticas, os gatos domésticos não fazem parte da fauna nativa (e causam o seu declínio em várias regiões do país).
Por isso, eles representam uma grande ameaça – principalmente em áreas protegidas (unidades de conservação) e ilhas oceânicas, que costumam abrigar muitas espécies endêmicas.
Como os gatos impactam a biodiversidade?
No contexto de impacto ambiental, não estamos falando somente de gatos ferais (que não têm contato com humanos e se alimentam por meio da caça) ou gatos errantes (que vivem nas ruas, mas mantém contato com humanos, se alimentando dos seus restos de comida ou de alimentos fornecidos por eles).
Na verdade, esse assunto tem tudo a ver com os gatos considerados pets – especialmente quando os tutores permitem que eles deem uma voltinha!
Afinal, mesmo quando são bem cuidados e alimentados, gatos de estimação mantêm o comportamento de caça por puro instinto — não por fome.
Esse hábito pode causar desequilíbrios ecológicos sérios, como:
- Predação de animais silvestres (incluindo espécies ameaçadas);
- Competição por alimento com os predadores nativos (como aves, répteis e mamíferos carnívoros);
- Transmissão de doenças para outras espécies (e até seres humanos);
- Perturbação das cadeias alimentares e dos ciclos ecológicos locais.
Também vale ressaltar que, quando os gatos domésticos têm qualquer tipo de contato com fezes, urina, animais silvestres ou outros gatos domésticos, mesmo que de forma indireta, eles podem servir como vetores de patógenos (transmissores de doenças).
Assim, acabam repassando vírus, fungos e bactérias para populações que antes estavam isoladas desses patógenos – o que abre um leque perigoso de novas doenças para humanos, animais e, claro, os próprios gatos.
Áreas menores, problemas maiores
Quando se fala de áreas protegidas, os danos são mais graves ainda.
Um caso famoso é o do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, lar de várias espécies endêmicas – como o lagarto mabuia-de-noronha (Trachylepis atlantica) e as aves cocoruta (Elaenia ridleyana) e juruviara-de-noronha (Vireo gracilirostris).

Mabuia-de-noronha, espécie de lagarto encontrada apenas no arquipélago de Fernando de Noronha, que sofre com ataques de gatos domésticos.
Foto: Carlos Otávio Gussoni – iNaturalist.
Além disso, Noronha também é um dos poucos locais de reprodução de aves marinhas ameaçadas de extinção, como o rabo-de-palha-do-bico-laranja (Phaeton lepturus) e o atobá-de-pé-vermelho (Sula sula).

Atobá-de-pé-vermelho, ave marinha ameaçada de extinção. O atobá utiliza a área de Fernando de Noronha para se reproduzir – e os gatos podem predar seus ovos e filhotes.
Foto: Andrea Carpio – iNaturalist.
Porém, apesar da abundância de espécies endêmicas e ameaçadas, um estudo de 2021 mostrou que, dentro do parque marinho, havia mais de 300 gatos ferais! Inclusive, esse número aumentou em torno de 40% em comparação com outro levantamento semelhante realizado em 2015.
Para piorar, um trabalho de 2020 demonstrou que cerca de 20% da dieta de gatos ferais de Fernando de Noronha era composta de espécies endêmicas dali.
Assim, podemos dizer que a presença dos gatos coloca em risco a sobrevivência da fauna do arquipélago.
Então, o gato é o vilão da história?
Não. O verdadeiro problema é a ação humana — que introduziu esses animais exóticos em ecossistemas brasileiros, muitos deles frágeis, sem nenhum planejamento ou controle.
E, assim como os humanos causaram esse problema sério, eles também fazem parte da solução: é fundamental sensibilizar as pessoas para que assumam a responsabilidade coletiva de resolver essa questão.
Algumas pessoas até argumentam que os gatos controlam ratos e camundongos (que também são espécies exóticas). No entanto, mesmo que isso seja parcialmente verdade, o saldo ainda é negativo para a biodiversidade nativa.
Portanto, precisamos de mais conversas e campanhas educativas sobre o assunto, que permitam promover atitudes para minimizar o impacto do descuido humano.

Gatos soltos em um parque.
Foto: Süleyman Tasbas – Pexels.
Como posso reduzir os impactos do meu gato?
Se você tem um gato em casa, lembre-se: cuidar (ou deixar de cuidar) dele impacta a vida de outros seres!
Veja algumas dicas importantes:
- Não permita que seu gato passeie livremente por aí! Mantenha-o em ambiente doméstico: basta instalar telas nas janelas ou ao redor das áreas onde o animal circula no quintal (criando um gatil).
- Forneça os cuidados básicos ao seu pet (como alimentação equilibrada, limpeza, brinquedos e companhia). Tudo isso faz com que ele se sinta bem dentro do seu lar – e reduz a motivação para passear lá fora.
- Leve-o ao veterinário com frequência. Assim como você, ele também precisa de acompanhamento médico – e isso evita que ele se torne um vetor de doenças.
- Mantenha as vacinas dele em dia. Vale a pena descobrir se a sua cidade oferece vacinação gratuita de pets pelo Centro de Zoonoses (CCZ) ou outra instituição.
- Castre o seu animal. Essa atitude simples previne fugas, brigas, doenças e reprodução indiscriminada, reduzindo o número de gatos fora do ambiente doméstico.

Manter os gatos dentro de casa é uma atitude consciente, que ajuda a proteger os animais nativos.
Foto: Ersin Izan – Pexels.
Ajude a pressionar por soluções coletivas
Além das atitudes individuais citadas acima, também precisamos de ações coletivas, como:
- Investimento em campanhas e atividades de Educação Ambiental que informem sobre a importância da guarda responsável e os impactos dos gatos no meio ambiente (principalmente em ilhas e áreas protegidas).
- Iniciativas que promovam o resgate e adoção dos gatos errantes e ferais, reduzindo o número de animais abandonados.
- Incentivos reais ao monitoramento e controle das populações de gatos (como programas ativos de castração gratuita).

Gato caçando um peixe.
Foto: Artem Makarov – Pexels.
Para saber mais sobre o impacto dos gatos na fauna silvestre, confira as cartilhas informativas disponíveis nos links abaixo:
- Observatório de Aves da Mantiqueira
- Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)
O WAITA é uma organização sem fins lucrativos que, desde 2010, atua com pesquisa e conservação de fauna através de projetos e ações direcionadas, principalmente, para vítimas do tráfico de animais silvestres. Clique aqui para contribuir com o nosso trabalho.
– Texto por Maria Isabel Carvalho
– Revisão por Isabela Izidoro
Referências Consultadas
- Campos, Cláudia Bueno de. (2024). Impacto de cães (Canis familiaris) e gatos (Felis catus) errantes sobre a fauna silvestre em ambiente periurbano. Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo, Mestre em Ecologia de Agroecossistemas. Piracicaba.
- Ferreira, Giovanne & Nakano-Oliveira, E. & Genaro, Gelson. (2012). Gatos: vilões ou vítimas?. Revista Expedição de Campo. 3. 22-26.
- Ferreira, Giovanne Ambrosio. (2016). Gatos domésticos em ambiente insular de Mata Atlântica: potenciais impactos sobre mamíferos silvestres e a castração como estratégia para conservação. Universidade Federal de Juiz de Fora, Pós-graduação em Ecologia, Doutorado em Ecologia Aplicada ao Manejo e Conservação de Recursos Naturais.
- Sobral, Felipe & Magnini, Paulo Rogerio & Mello, Thayná Jeremias & Araújo, Ricardo & Silva, Jean Carlos Ramos & Micheletti, Tatiane. (2021). Feral Cat Population Rises on Fernando de Noronha Archipelago: Wildlife Needs Different Cat Control Approaches, and Needs it Now. Revista Biodiversidade Brasileira, ICMBio. 11. 1-9.