Quando pensamos em eleições, talvez a proteção da fauna silvestre não seja a primeira coisa que venha à mente. Mas deveria fazer parte fundamental dessa reflexão.
As pessoas que elegemos participam de decisões que podem influenciar diretamente a conservação das espécies, a proteção das florestas, a qualidade da água que consumimos, o uso do solo, o controle de substâncias potencialmente nocivas, a fiscalização de crimes ambientais e os recursos disponíveis para ciência e pesquisa.
E tudo isso também chega até nós. Não existe uma fronteira separando a nossa vida do meio ambiente. Dependemos da natureza para ter água, alimentos, matérias-primas, regulação climática e inúmeras outras condições necessárias à nossa saúde, à economia e à qualidade de vida.
A Constituição Federal reconhece o direito de todos a um meio ambiente ecologicamente equilibrado e estabelece responsabilidades relacionadas à proteção do meio ambiente, das florestas, da fauna e da flora. Também prevê competências legislativas sobre temas como caça, pesca, conservação da natureza, proteção do solo e dos recursos naturais e controle da poluição.
Por isso, quando escolhemos nossos representantes, também escolhemos quem participará das decisões sobre o patrimônio natural brasileiro.
Uma decisão política pode chegar muito longe
Uma lei aprovada hoje pode determinar como determinada atividade será fiscalizada. Uma decisão orçamentária pode ampliar ou reduzir recursos disponíveis para pesquisa. Uma política pública pode fortalecer ações de conservação, recuperação ambiental ou prevenção de danos.
Da mesma forma, decisões sobre desenvolvimento econômico, infraestrutura e uso do território podem produzir consequências ambientais que permanecem por décadas ou podem, até mesmo, se tornar irreversíveis.
É por isso que a pauta ambiental atravessa tantas áreas. Ela está presente quando o poder público discute licenciamento ambiental e as regras aplicáveis a empreendimentos capazes de gerar impactos sobre ecossistemas e comunidades.
Está presente nas decisões sobre proteção de áreas naturais, criação e gestão de unidades de conservação e recuperação de ambientes degradados. A legislação brasileira prevê que essas áreas podem ter objetivos como proteger biodiversidade, recursos hídricos e solos, restaurar ecossistemas e favorecer pesquisa científica e monitoramento ambiental.
Está presente na definição de políticas relacionadas à qualidade e disponibilidade da água, proteção do solo, saneamento e destinação de resíduos.
Também aparece nas discussões sobre agrotóxicos e outras substâncias que podem alcançar o ambiente, afetando organismos que não eram seus alvos, cursos d’água, solos e cadeias ecológicas.
E está diretamente relacionada à maneira como o país responde aos crimes contra a fauna.
Caça ilegal, captura, comércio e manutenção irregular de animais silvestres estão entre as condutas abrangidas pela legislação ambiental brasileira. As regras existentes, suas penas, a capacidade de fiscalização e as políticas de enfrentamento a essas atividades dependem de leis, instituições, orçamento e decisões públicas.
Isso significa que o enfrentamento ao tráfico de animais silvestres, por exemplo, não depende apenas do trabalho de organizações da sociedade civil ou da conscientização das pessoas. Também envolve legislação, fiscalização, investigação, responsabilização e políticas capazes de enfrentar toda a cadeia que mantém esse crime funcionando.
Conservação também é política pública.
A fauna sente os efeitos dessas escolhas
Para um animal silvestre, decisões que parecem distantes podem significar a diferença entre encontrar ou não um território onde seja possível sobreviver.
Quando uma floresta é fragmentada, uma estrada atravessa uma rota de deslocamento, um rio é contaminado ou uma área natural desaparece, não é apenas a paisagem que muda.
Animais podem perder abrigo, alimento, locais de reprodução e conexão com outras populações. Podem ficar mais expostos a atropelamentos, conflitos com seres humanos, caça e outras ameaças.
Por isso, proteger a fauna não significa apenas agir quando um animal já está ferido ou ameaçado.
Significa também prevenir.
Significa planejar cidades e estradas considerando a biodiversidade. Proteger habitats. Manter corredores ecológicos. Combater o tráfico e a caça ilegal. Fiscalizar atividades potencialmente degradadoras. Prevenir incêndios. Recuperar áreas degradadas. Reduzir a contaminação de rios e solos. E garantir estruturas adequadas para receber, tratar, reabilitar e destinar animais silvestres quando eles precisam de atendimento.
São muitas decisões diferentes, tomadas em diferentes níveis do poder público, que juntas ajudam a determinar o cenário que encontraremos no futuro.
Sem ciência, não existe conservação baseada em evidências
Existe ainda outra relação entre política e conservação que nem sempre é percebida: o financiamento da pesquisa científica.
Antes de proteger uma espécie, precisamos conhecê-la. Precisamos entender onde ela ocorre, quantos indivíduos existem, como utiliza seu habitat, do que se alimenta, como se reproduz, quais ameaças enfrenta e quais estratégias realmente podem contribuir para sua conservação.
Esse conhecimento exige anos de trabalho, equipes especializadas, deslocamentos, equipamentos, análises, monitoramento e continuidade.
No Brasil, uma parte importante desse trabalho é viabilizada por mecanismos públicos de fomento à ciência, incluindo bolsas, programas e editais de pesquisa.
Essa realidade também faz parte do trabalho do Waita: projetos de pesquisa podem depender de recursos obtidos por meio de editais públicos de fomento à ciência e à conservação.
Por trás de um animal monitorado, de uma população estudada ou de uma estratégia de conservação desenvolvida, existe pesquisa, pessoas, equipamentos, tempo é dedicação. E para que tudo isso aconteça, é necessário investimento.
Decidir quanto um país investe em ciência, biodiversidade e conservação também é uma escolha pública.
Meio ambiente também é saúde
Talvez ainda exista a percepção de que meio ambiente seja uma pauta distante da vida cotidiana.
Mas respirar ar de qualidade, ter acesso à água segura, produzir alimentos, viver em cidades mais resilientes a eventos climáticos extremos e reduzir a exposição a contaminantes são questões ambientais e também questões de saúde.
Nós fazemos parte dos ecossistemas que transformamos. Quando rios são contaminados, solos são degradados, florestas desaparecem ou a biodiversidade é reduzida, as consequências não ficam restritas aos animais silvestres.
Por isso, proteger a biodiversidade não significa escolher entre pessoas e natureza.
Nossa saúde, nossa qualidade de vida e as condições que deixaremos para as próximas gerações também dependem da maneira como cuidamos do ambiente hoje.
Antes de escolher, pesquise
Em períodos eleitorais, é comum encontrar discursos sobre sustentabilidade, proteção animal e meio ambiente.
Mas conhecer uma candidatura exige ir além daquilo que aparece durante a campanha.
Para quem já exerceu mandato, informações públicas permitem consultar projetos apresentados, votações registradas e outras formas de atuação parlamentar. Para novas candidaturas, é possível consultar informações oficiais e propostas apresentadas à Justiça Eleitoral.
O importante é buscar fontes confiáveis e verificar informações antes de formar uma conclusão.
- O DivulgaCandContas, disponibilizado pela Justiça Eleitoral, reúne informações oficiais sobre candidaturas e contas eleitorais.
- Os portais da Câmara dos Deputados e do Senado Federal permitem acompanhar proposições e registros de votações.
- Já o Portal da Transparência disponibiliza informações sobre a aplicação de recursos públicos, incluindo emendas parlamentares.
- A página oficial das Eleições 2026 do Tribunal Superior Eleitoral também reúne informações sobre candidaturas, partidos, calendário, normas e prestação de contas.
Consultar estas fontes permite comparar o que é apresentado durante uma campanha com registros públicos de atuação, quando eles existem.
O futuro da biodiversidade também passa pelas urnas
No Waita, trabalhamos diariamente com pesquisa e conservação da fauna silvestre. E sabemos que proteger uma espécie exige muito mais do que cuidar de indivíduos.
É preciso proteger os lugares onde esses animais vivem. Produzir conhecimento. Investir em ciência. Reduzir ameaças. Combater crimes ambientais. Planejar formas de coexistência. Manter estruturas adequadas de atendimento à fauna. E construir políticas públicas capazes de pensar a biodiversidade no longo prazo.
Organizações da sociedade civil têm um papel importante nesse processo, mas a conservação da biodiversidade é uma responsabilidade compartilhada.
Por isso, em uma eleição, vale olhar além das promessas. Pesquise propostas. Consulte históricos. Acompanhe votações e projetos. Busque informações em fontes oficiais. Observe os compromissos apresentados e a atuação pública de quem já exerceu mandato.
As decisões tomadas hoje sobre nossas florestas, rios, solos, fauna, ciência e recursos naturais ajudam a definir as condições ambientais que existirão amanhã.
A fauna silvestre não participa das eleições.
Mas o futuro dela será diretamente afetado por muitas das decisões tomadas por quem elegemos. E o nosso também.